Neve, granizo e geada não são o que mais estraga telhados em Portugal. Mas, onde acontecem, estragam de maneira própria: peso, pancadas e gelo dentro da telha. Este guia diz onde estes riscos contam, o que fazer depois de um episódio e o que não conseguimos confirmar.
Atualizado a 4 de novembro de 2026. Informação geral. Não é um cálculo de estruturas: a carga de neve de uma casa só o projetista a determina.
O essencial
- A neve é rara fora da serra. Nas normais do IPMA, Lisboa e Faro não têm dias de neve e Penhas Douradas (1380 m) tem cerca de 25 por ano.
- O granizo é raro e não escolhe zona. Cai no litoral e no interior, em aguaceiros muito localizados.
- O gelo estraga a telha por dentro. Em zonas frias, peça a classe de resistência ao gelo.
- Depois do episódio, não suba ao telhado. Fotografe do chão e avise a seguradora.
- Obra em zona alta: pergunte ao projetista pela carga de neve.
Quão raros são estes eventos?
O IPMA publica o número médio de dias por ano com neve e granizo nas normais de 1971 a 2000 e, para a geada, nas de 1991 a 2020 (dias com temperatura mínima abaixo de 0 °C):
| Estação (altitude) | Dias com neve | Dias com granizo | Dias de geada |
|---|---|---|---|
| Penhas Douradas (1380 m) | 24,9 | 2,0 | 54,4 |
| Montalegre (1005 m) | 18,5 | 2,5 | 41,3 |
| Guarda (cerca de 1000 m) | 11,7 | 1,6 | 31,9 |
| Bragança (690 m) | 6,1 | 1,2 | 53,4 |
| Vila Real (480 a 560 m) | 1,4 | 3,4 | 16,7 |
| Porto, Pedras Rubras (70 m) | 0,2 | 4,6 | 1,4 |
| Lisboa (77 m) | 0,0 | 1,5 | 0,0 |
| Faro (poucos metros) | 0,0 | 1,1 | 0,0 |
O número de dias não diz o tamanho das pedras. E o IPMA explica que o granizo se regista à vista, só em estações clássicas, cada vez menos, por isso estes números ficam curtos.
Neve: o peso no telhado
Os edifícios projetam-se com o Eurocódigo 1, parte 1-3 (NP EN 1991-1-3), e o seu Anexo Nacional. Não encontrámos o anexo de acesso livre. Lemos uma sebenta do Instituto Superior Técnico (2011) que o resume. Segundo ela:
- o país tem três zonas de neve, Z1, Z2 e Z3. No mapa da sebenta, a Z1 cobre o interior do centro e do nordeste; o sul e as ilhas ficam na Z3;
- a neve no solo, em kN/m², é sk = Cz × [1 + (H/500)²], com H a altitude em metros e Cz igual a 0,30 (Z1), 0,20 (Z2) e 0,10 (Z3), para 50 anos de retorno. A carga no telhado depende ainda da forma e do vento;
- na Z1 conta-se também um deslocamento excecional de neve na cobertura. Em Aguiar da Beira, Fornos de Algodres, Mangualde, Nelas, Penalva do Castelo, Sátão e Viseu, conta ainda uma queda excecional, com a neve no solo multiplicada por 2,5.
A altitude pesa ao quadrado. Na fórmula, a altitude entra elevada ao quadrado: subir de altitude aumenta muito a carga da neve no solo. A zona do seu concelho vem no mapa do anexo nacional, que não vimos.
Junto ao mar, a neve quase não entra nas contas. Na serra da Estrela, em Montalegre ou em Bragança, o telhado novo ou substituído deve ser calculado com ela. A inclinação também conta: o guia da APICER diz que a neve pede inclinações maiores, para evitar sobrecargas. Veja a inclinação mínima.
Num aviso de neve (28 de fevereiro de 2025, para neve acima de 1200 a 1400 m), a Proteção Civil pede que se desentupam os escoamentos, se fixem estruturas soltas e se evitem deslocações. Não fala de limpar neve de telhados.
Granizo: telhas, claraboias e painéis
Nas estações clássicas, o granizo é mais frequente entre fevereiro e abril. Em 30 e 31 de maio de 2020, o IPMA confirmou por radar granizo na Guarda, no Fundão e em Castelo Branco, entre outros concelhos, com avisos laranja e vermelhos. Em 12 de junho de 2023, houve granizo na Beira Alta e em Trás-os-Montes, em alguns casos durante dezenas de minutos.
Telhas. Não encontrámos testes de granizo a telhas portuguesas. Num estudo suíço (2007), as telhas de barro estão entre os materiais mais resistentes quanto à estanquidade. O ensaio com bolas de gelo de 10 a 50 mm dá cinco classes, e as telhas planas de barro do estudo ficam na classe 4 (40 mm). O estudo separa dano estético (lascas) de dano funcional (telha partida, água a entrar).
Painéis solares. O Departamento de Energia dos EUA (FEMP) diz que o ensaio-base da IEC 61215 usa gelo de 25 mm a 23 m/s e não chega para granizo severo. Aconselha vidro frontal de pelo menos 3,2 mm e avisa que o granizo pode fissurar células sem partir o vidro. Veja os painéis solares e as claraboias, das quais não encontrámos dados.
Geada e gelo
Quando a água dentro da telha gela, a telha lasca. O guia da APICER e do CTCV (2018) manda substituir a telha que descasca e, como prevenção, ventilar bem a face inferior e usar telha com resistência comprovada ao gelo e pouca absorção. Desde 2017, as telhas de argila de uso exterior têm classes de 1 a 3, de 30 a 150 ou mais ciclos de gelo-degelo. A tabela está nas telhas e clima.
Gelo nos beirais. Numa universidade americana, explica-se assim: o calor da casa derrete a neve, a água corre até ao beiral frio e gela, e forma um dique. As causas são pouco isolamento, ar quente a passar para o sótão e ventilação fraca. Vem de climas bem mais frios e não encontrámos dados portugueses. Segundo a fonte, a solução está em vedar e isolar. Veja o isolamento e a limpeza das caleiras, que a ANEPC pede desimpedidas.
Depois de granizo ou neve
- Não suba. Neve e gelo escorregam: veja os trabalhos em altura.
- Não fique sob o beiral: podem cair telhas soltas, neve ou gelo.
- Fotografe do chão, com data, antes de mexer. Veja as primeiras 48 horas.
- Avise a seguradora no prazo da apólice. Procure nela «granizo», «neve» e «peso da neve». Veja o seguro contra tempestades.
- Se o teto estalar ou ceder com muita neve (sugestão nossa), saia da divisão e chame um engenheiro; em perigo, 112.
- Painéis solares: desligue o sistema até haver inspeção. A FEMP pede exame no prazo de um mês.
O que o empreiteiro deve verificar
Sugestão nossa, com base nas fontes acima: telhas partidas, lascadas ou deslocadas; rufos, remates, claraboias e caleiras amolgados; ventilação sob a telha e isolamento, se há gelo ou condensação; fixação, vidro e ligações dos painéis. Peça por escrito o que é dano novo e o que já existia, por causa do seguro. Veja como escolher o empreiteiro.
Veja também: Sobre a estrutura que sustenta a cobertura, veja madeira, betão e metal.
O que não conseguimos confirmar
- O texto do Anexo Nacional. Lemos só a sebenta de 2011. Há uma emenda de 2017 (A1) que não lemos e que pode mudar valores. O mapa não deixa ver a zona de cada concelho.
- A zona de neve da sua freguesia. Peça-a ao projetista.
- Quanto granizo cai por região: só há dias observados à vista.
- Se o seu seguro cobre neve ou granizo. Depende da apólice.
- Testes de granizo a telhas e claraboias portuguesas, e gelo nos beirais em Portugal.
- As normas EN 1304 e EN 539-2: são vendidas e não as lemos.
Fontes (lidas a 4 de novembro de 2026)
- IPMA, normais 1971-2000 (Penhas Douradas; as outras estações têm o mesmo endereço) e normais 1991-2020.
- IPMA, granizo e saraiva em 30 e 31 de maio de 2020, novembro de 2020.
- IPMA, granizo e chuva forte na Beira-Alta e Trás-os-Montes, 16 de junho de 2023.
- P. Mendes (IST), Quantificação de ações em edifícios de acordo com o Eurocódigo 1, abril de 2011 (não é o anexo oficial).
- ANEPC, Aviso n.º 5/DCS/2025, 28 de fevereiro de 2025.
- APICER e CTCV, Guia para Projeto e Aplicação de Telhas Cerâmicas, 2018.
- Regulamento Delegado (UE) 2017/1475, texto e nota da APCMC.
- Präventionsstiftung der kantonalen Gebäudeversicherungen (Suíça), Elementarschutzregister Hagel, 2007 (em alemão).
- U.S. Department of Energy, FEMP, Hail Damage Mitigation for PV Systems (sem data visível).
- M. Dries e R. Seavey, University of Minnesota, Ice Dam Symptoms and Solutions (dados de 2015-2016).
- Dlubal, neve segundo a NP EN 1991-1-3, só para a emenda A1:2017 (não oficial).
