Debaixo das telhas há uma estrutura que aguenta o peso do telhado, a neve e o vento. Quase ninguém a vê, mas ela decide se a obra pede um engenheiro. Este guia mostra os três tipos, os sinais de alerta, as cargas da norma e quem pode assinar o projeto.
Atualizado a 4 de novembro de 2026. Informação geral. Não é uma avaliação estrutural: só um engenheiro, no local, pode dizer se a estrutura está segura.
O essencial
- Há três famílias de estrutura: madeira (a tradicional), laje de betão armado e aço (APICER e CTCV, 2018).
- Telhado com barriga é sinal de alerta. Pode ser só uma ripa torta ou rotura estrutural e empurrão sobre as fachadas.
- Mudar o peso, a distribuição das cargas ou os apoios pede projeto e verificação da estrutura que está por baixo (APICER e CTCV).
- A neve e o vento dependem do local. Quem calcula é o engenheiro.
- Os projetos de estruturas de edifícios são de engenheiros civis ou engenheiros técnicos civis com inscrição válida (Lei n.º 31/2009, alterada pela Lei n.º 40/2015).
Os três tipos e como se reconhecem
- Madeira: asnas, madres, varas e ripas. Em vãos pequenos pode faltar a asna: fica uma viga de cumeeira e as varas.
- Laje de betão: uma superfície contínua e inclinada, que segue a água do telhado.
- Aço: perfis de aço, por vezes em «light steel frame».
A APICER e o CTCV descrevem o telhado tradicional como uma estrutura de madeira em camadas, cada vez menos resistentes e mais juntas perto das telhas. Os nomes estão no glossário do telhado. Na laje, a telha também assenta em ripa. O aço segue muitas vezes o modelo da madeira.
A forma de distinguir é nossa: madeira à vista é madeira; betão liso a seguir a pendente é laje; perfil dobrado e parafusado é aço.
Madeira: os sinais da estrutura
Pragas e podridão têm o seu guia: madeira, caruncho e térmitas.
- Deformação. A APICER e o CTCV ligam o telhado deformado a rotura estrutural, a empurrão horizontal sobre as fachadas e a telhas deslocadas. Pode vir só da ripa ou das varas, mas aconselham sempre avaliação estrutural.
- Empurrão nas paredes. Um frechal bem travado reduz os impulsos horizontais. Fendas no topo das paredes ou uma parede a inclinar são sinais por dedução nossa: chame um engenheiro.
- Ligações. A ligação da perna à linha da asna tem de passar a força vertical e a horizontal e não pode ficar muito perto da ponta da linha, sob pena de rotura por corte. Reforços de metal nos nós só valem se forem calculados, tal como as escoras provisórias.
- Como cai a estrutura principal: sobretudo por incêndio, podridão de infiltrações graves ou colapso do que está por baixo.
Laje de betão: o que olhar
O LNEC diz que, no betão armado, a corrosão das armaduras é o mecanismo de degradação mais frequente, muitas vezes ligado a recobrimentos reduzidos. Vem da carbonatação do betão ou de cloretos. A ferrugem ocupa mais volume do que o aço e causa fissuração e depois destacamento do betão.
Vista de baixo, a nossa leitura é: manchas castanhas, betão a soltar-se, varões à vista e fendas ao longo deles. Manchas de humidade pedem a causa da infiltração. A APICER prefere o isolamento na face exterior da laje inclinada (veja a condensação no desvão).
Aço: o que olhar
O LNEC põe a corrosão como a principal forma de degradação dos metais. O aço comum costuma levar zinco, zinco e alumínio ou tinta, e a corrosão depende da humidade e de agentes como cloretos e dióxido de enxofre. Procure ferrugem e tinta a descascar.
Nos painéis, a Kingspan (09/2024) diz que a subestrutura não vem no fornecimento: os apoios têm de cumprir o painel, e o projetista ou o fornecedor avalia o seu comportamento estrutural e ao fogo. A Paroc (03/2022) pede que, antes de montar, se confirme que a estrutura está pronta, com apoios largos e tolerâncias aceitáveis, e que a espessura do aço serve aos parafusos. Veja o guia do painel sandwich.
Que cargas conta o engenheiro
Os valores vêm de apontamentos do IST (2011) sobre a NP EN 1991 e os anexos nacionais. Não lemos as normas.
- Cobertura só acessível para manutenção (categoria H): 0,4 kN/m² na projeção horizontal e uma carga pontual de 1,0 kN, que não se somam à neve nem ao vento.
- Neve. Três zonas, Z1, Z2 e Z3. A carga no solo é sk = Cz [1 + (H/500)²] kN/m², com H a altitude em metros e Cz igual a 0,30 (Z1), 0,20 (Z2) e 0,10 (Z3), para um período de retorno de 50 anos. Na cobertura multiplica-se por coeficientes de forma, de exposição (0,8 a 1,2) e térmico.
- Vento. Zona A (quase todo o país): velocidade de referência de 27 m/s. Zona B (Açores, Madeira, faixa costeira de 5 km e continente acima de 600 m): 30 m/s. Também para 50 anos.
A zona do seu concelho vem no mapa do anexo nacional, que não vimos.
Mudar a cobertura: quando pede engenheiro
A APICER e o CTCV dizem que uma estrutura nova deve ser compatível com a do edifício no peso, na distribuição das cargas e nos apoios. Qualquer alteração significativa nestes pontos exige projeto integral e verificação do impacte na estrutura que está por baixo.
Na nossa leitura, trocar telha por painel leve (ou o contrário) muda o peso e as fixações: é caso para engenheiro. Um telhado mais leve não é, só por isso, mais seguro: veja sismos e telhados. Veja a licença de obras e o peso das telhas em telhas e clima.
Quem pode assinar
A Lei n.º 31/2009, na redação da Lei n.º 40/2015 (em vigor desde 6 de junho de 2015), diz:
- Os projetos de engenharia são de engenheiros ou engenheiros técnicos reconhecidos pela Ordem dos Engenheiros e pela Ordem dos Engenheiros Técnicos (artigo 10.º, n.º 3).
- No anexo III, o quadro 2 indica para «fundações e estruturas de edifícios» engenheiros civis e engenheiros técnicos civis.
- Em obras mais complexas, a lei pede título de especialista ou anos de experiência. A categoria II inclui estruturas de edifícios com menos de 15 m de altura, da fundação à cobertura, e estruturas com vãos até 8 m.
- O autor assina um termo de responsabilidade (artigo 21.º) e quem projeta ou dirige a obra tem de ter seguro de responsabilidade civil (artigo 24.º).
Um empreiteiro ou telhador não está nessa lista. Peça o número de inscrição e confirme-o na Ordem (conselho nosso).
O que pedir ao engenheiro
- O tipo de estrutura e o seu estado, com fotografias.
- A inscrição na Ordem, o termo de responsabilidade e o seguro.
- As cargas usadas: altitude, zona de neve e de vento.
- O peso do revestimento novo e do antigo.
- As ligações, os apoios e o escoramento calculado.
- Em aço: a proteção contra a corrosão.
- Tudo por escrito. Veja como escolher o empreiteiro.
Veja também: Sobre neve, granizo e gelo, veja neve, granizo e gelo no telhado.
O que não conseguimos confirmar
- Os textos das normas NP EN 1991-1-3 e 1-4 e dos anexos nacionais, vendidos pelo IPQ. Não vimos o mapa de zonas, a zona de cada concelho, nem versões novas desde 2011.
- A categoria (I a IV, Portaria n.º 701-H/2008) do projeto de um telhado de moradia: não lemos a portaria.
- O texto atual da Lei n.º 31/2009. Lemos a versão de 14 de junho de 2018 e a Lei n.º 40/2015 em cópia; o Diário da República não foi consultado. A Lei n.º 3/2026 só pela nota da OET, que fala do artigo 5.º.
- Um limite oficial de deformação aceitável.
- A parte dos prédios por tipo de estrutura nos Censos 2021.
- Os sinais visíveis de laje e de aço: são dedução nossa.
Fontes (lidas a 4 de novembro de 2026)
- APICER e CTCV, Guia para Projeto e Aplicação de Telhas Cerâmicas, 2018.
- P. Mendes (IST), Quantificação de ações em edifícios de acordo com o Eurocódigo 1, abril de 2011.
- Lei n.º 40/2015, de 1 de junho, cópia do Diário da República. Lei n.º 31/2009, versão consolidada de 2018.
- Ordem dos Engenheiros Técnicos, nota sobre a Lei n.º 3/2026, 6 de janeiro de 2026.
- LNEC, Durabilidade dos materiais de construção (sem data visível).
- Kingspan, KS1000 RW, guia de projeto e instalação, 09/2024. Paroc, guia de instalação, 03/2022.
