Por baixo das telhas de uma casa antiga há quase sempre madeira: asnas, madres, varas e ripas. Essa madeira tem três inimigos: a água, que traz a podridão, os carunchos e as térmitas. Este guia explica como os reconhecer do sótão, o que é grave, quem pode avaliar e tratar, e o que pedir por escrito. Não indicamos empresas nem preços.
Atualizado a 4 de novembro de 2026. Informação técnica geral. Não substitui a avaliação de um engenheiro nem de um técnico qualificado.
O essencial
- Primeiro a água. Fungos de podridão e térmitas subterrâneas precisam de madeira húmida. O LNEC (2024) aponta um teor de água acima de 18 a 20% para as térmitas. Tratar sem parar a fuga ou a condensação não resolve.
- Sinais de ataque não querem dizer ataque ativo. No Palácio Nacional da Ajuda, o LNEC encontrou sobretudo sinais antigos de térmitas, em madeira já seca.
- As térmitas subterrâneas podem não deixar sinais por fora. A peça parece inteira e está oca. Só uma inspeção com ferramentas o mostra.
- Os pontos fracos são as ripas e os apoios nas paredes. As asnas e as madres costumam aguentar mais.
- Os produtos de tratamento são biocidas. Devem estar autorizados e ser usados como diz o rótulo.
A estrutura em poucas palavras
O guia técnico da APICER e do CTCV (2018) lembra que a grande maioria dos telhados tradicionais de telha cerâmica tem estrutura de madeira. A estrutura principal são as asnas (ou tesouras) e as madres, que levam o peso às paredes. Por cima ficam as varas, no sentido da pendente, e as ripas, onde assentam as telhas. Os nomes estão no glossário do telhado.
Segundo o mesmo guia, as peças principais são as menos vulneráveis, por estarem mais protegidas e serem mais grossas. Cedem sobretudo por incêndio ou por podridão de infiltrações graves e continuadas.
Os agentes e os seus sinais
| Agente | Sinais que pode ver | Fonte |
|---|---|---|
| Fungos de podridão | Madeira escura, mole, que se desfaz (prática corrente), sobretudo junto a beirais, caleiras e apoios | APICER/CTCV; diretrizes de 2015 |
| Caruncho pequeno (Anobium punctatum) | Pequenos furos redondos e pó granuloso | Instituto Canadiano de Conservação |
| Caruncho grande (Hylotrupes bajulus) | Furos ovais grandes e cavidades | Instituto Canadiano de Conservação |
| Térmita subterrânea | Muitas vezes nenhum sinal por fora; peça oca por dentro | LNEC, 2024 |
| Térmita de madeira seca (Açores) | Insetos alados em voo, de maio a setembro | Universidade dos Açores, 2015 |
Térmitas em Portugal
Continente. Segundo o LNEC (2024), a térmita subterrânea Reticulitermes grassei está amplamente distribuída em Portugal. Vive no solo e passa para os edifícios quando a madeira fica anormalmente húmida. Come o interior das peças e deixa o exterior inalterado. Todas as madeiras nacionais não tratadas são suscetíveis, em especial o pinho bravo. Num ensaio de laboratório do LNEC (2011), as térmitas atacaram todas as madeiras testadas, mas evitaram o castanho quando podiam escolher.
Açores. Um relatório da Universidade dos Açores (2015) refere quatro espécies no arquipélago. Destaca a térmita de madeira seca Cryptotermes brevis, registada em 2000 e confirmada em 2015 em seis das nove ilhas, com mais impacto nos centros antigos de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada. O relatório nota que a espécie já apareceu em Lisboa, mas acha pouco provável que se espalhe no continente como nos Açores.
A região tem lei própria, o Decreto Legislativo Regional n.º 22/2010/A. A Resolução do Conselho do Governo n.º 195/2024 fixa as freguesias potencialmente infestadas e diz que, em 2022 e 2023, a térmita de madeira seca se expandiu, com novos focos em Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e Ribeira Grande.
Inspecionar do sótão, com segurança
Não suba ao telhado: veja os trabalhos em altura. Os passos abaixo são prática nossa, apoiada no que as fontes pedem a um inspetor:
- Pise só em vigas ou estrado firme. As diretrizes de 2015 dizem que, se a estrutura não for segura para andar, primeiro escora-se.
- Use uma lanterna de lado. A luz rasante mostra melhor os furos.
- Comece pelos pontos críticos: apoios nas paredes, beirais, cantos e ligações das asnas, que as diretrizes mandam ver primeiro. Acrescente as zonas por baixo de chaminés e rincões.
- Procure água: manchas, escorrimentos, madeira escura. Veja as causas de infiltração e a condensação no desvão.
- Fotografe com data. Não raspe nem fure peças principais: é trabalho de técnico.
Grave ou antigo?
Sinais que pedem um técnico depressa (resumo nosso a partir das fontes):
- Telhado com barriga. A APICER e o CTCV põem a deformação acentuada entre os três sinais de alerta, com risco de rotura e de empurrar as fachadas.
- Madeira mole nos apoios. Segundo as diretrizes de 2015, se a podridão atravessou toda a secção, a peça não conta para a carga.
- Madeira húmida junto a furos ou pó.
- Caleiras ou beirais estragados há anos, que o mesmo guia liga à degradação da madeira junto à fachada.
Muitas vezes antigo: furos em madeira seca e firme, e varas empenadas há décadas. A APICER e o CTCV dizem que esse empeno está muitas vezes estabilizado e sem consequência estrutural. Só uma inspeção o confirma. E uma deformação nem sempre vem de insetos: na Ajuda, o LNEC atribuiu um abatimento de 60 mm de um soalho ao escorregamento de vigas nos apoios.
Reparar, tratar ou substituir
O guia da APICER e do CTCV descreve três casos:
- Varas empenadas mas sãs: trocar o ripado, nivelado com calços, e tratar as ripas novas contra insetos.
- Degradação pontual da estrutura principal, muitas vezes podridão nos apoios: soluções pontuais, sem desmontar tudo. Próteses, reforços de metal ou de madeira, ou resinas, sempre com escoras calculadas.
- Estrutura principal perdida: estrutura nova, calculada e compatível com as paredes. Mudanças grandes de peso ou de apoios pedem projeto.
As diretrizes de 2015 lembram que é preciso resolver a entrada de água e deixar secar antes de a degradação parar. Se a obra mexe na estrutura, veja a licença de obras. Para decidir entre reparar e mudar tudo, veja reparar ou substituir o telhado.
Quem é qualificado
- Para a estrutura: um engenheiro (civil ou técnico) com experiência em madeira (recomendação nossa). As fontes pedem cálculo para reforços, escoras e estruturas novas.
- Para o tratamento: o Regulamento (UE) n.º 528/2012 chama «produtos de proteção da madeira» (tipo 8) aos que combatem organismos que destroem a madeira, incluindo insetos. Os inseticidas são o tipo 18. O artigo 17.º manda usá-los segundo a autorização e o rótulo, e reduzir o químico ao mínimo. A Portaria n.º 76/2022 indica a DGS ou a DGAV como autoridades competentes, conforme o caso.
- Nos Açores: o artigo 14.º do diploma regional diz quem pode ser perito qualificado na certificação de infestação por térmitas: arquitetos e engenheiros reconhecidos pelas ordens ou pela ANET, peritos qualificados noutro Estado da UE, ou licenciados com pelo menos 60 créditos em Biologia, Silvicultura, Tecnologia das Madeiras ou Ciências do Ambiente, com qualificação específica.
O que pedir por escrito
- Que agente foi encontrado e se o ataque está ativo ou inativo.
- Medições de humidade da madeira, com o local.
- De onde vem a água e como vai ser resolvida antes do tratamento.
- Que peças estão afetadas, quanto resta da secção e se há risco estrutural.
- O que não foi inspecionado e porquê, como pedem as diretrizes de 2015.
- O método (prótese, reforço, substituição) e o escoramento.
- O produto: nome comercial, número de autorização, tipo e ficha de segurança.
- A garantia: veja a garantia da obra e como escolher o empreiteiro.
Veja também: Sobre a estrutura que sustenta a cobertura, veja madeira, betão e metal.
O que não conseguimos confirmar
- O texto integral do Decreto-Lei n.º 140/2017 e do Decreto Legislativo Regional n.º 22/2010/A. O site do Diário da República deu erro a 4 de novembro de 2026. O artigo 14.º foi lido citado num documento da Universidade dos Açores.
- Se no continente é obrigatória uma certificação para quem aplica biocidas contra insetos da madeira numa casa.
- Que autoridade autoriza os produtos de proteção da madeira (DGS ou DGAV).
- Que térmitas existem na Madeira e a situação no Algarve: só encontrámos fontes comerciais.
- Medidas dos furos em milímetros, túneis de terra das térmitas subterrâneas e grânulos da térmita de madeira seca: fontes comerciais ou trabalhos que não conseguimos abrir.
- A ligação entre os nomes comuns e as espécies de caruncho, que vimos em trabalhos universitários citados mas não lidos.
- Um limite oficial de humidade para os fungos e se o certificado de térmitas dos Açores é pedido numa venda.
Fontes (lidas a 4 de novembro de 2026)
- APICER e CTCV, Guia para Projeto e Aplicação de Telhas Cerâmicas, 2018, capítulo 7 (agentes biológicos, inspeção, sinais de alerta, casos 8, 9 e 10).
- LNEC, H. Cruz, S. Duarte, L. Nunes e outros, Caracterização e diagnóstico de estruturas de madeira do Palácio Nacional da Ajuda, Congresso Construção 2024.
- H. Cruz (LNEC) e outros, Guidelines for the on-site assessment of historic timber structures, 2015, repositório da Universidade do Minho.
- S. Duarte, M. Gaju e L. Nunes (LNEC), Preferências alimentares de Reticulitermes grassei, CIMAD 11, 2011 (resumo).
- O. Guerreiro e P. A. V. Borges, Universidade dos Açores, Monitorização da térmita de madeira seca Cryptotermes brevis nos Açores (2010-2015), fevereiro de 2015.
- Governo dos Açores, Resolução do Conselho do Governo n.º 195/2024, de 30 de dezembro de 2024.
- Universidade dos Açores e LNEC, programa da formação de peritos qualificados no SCIT, setembro de 2026 (cita o artigo 14.º do Decreto Legislativo Regional n.º 22/2010/A).
- Regulamento (UE) n.º 528/2012, relativo aos produtos biocidas (artigo 17.º, n.º 5, e anexo V, tipos 8 e 18).
- Portaria n.º 76/2022, de 3 de fevereiro, lida numa cópia do texto publicado no Diário da República (DGS e DGAV).
- Governo do Canadá, Instituto Canadiano de Conservação, Major insect pests and their associated, diagnostic signs, 2017 (sinais dos carunchos).
